: Nessie @ 13:03

Dom, 25/11/12

 

O Erasmus foi definitivamente das melhores coisas que me aconteceu no sentido em que foi um grande ponto de viragem na minha vida. Não apenas pela experiência de estudar no estrangeiro, mas pela perspectiva que me deu e pelas diferenças que encontro agora que estou de volta.

 

Imediatamente após o meu regresso notei uma aproximação por parte da minha família, nomeadamente o meu avô. Não me interpretem mal, sempre me dei muitíssimo bem com os meus avós paternos e eles sempre estiveram bastante presentes na minha vida. Mas após a minha estadia em Inglaterra, sinto-me mais próxima do meu avô que nunca.

Gosto muito do meu avô; é o único que tenho, o único que conheci. Fui a primeira neta e durante três anos fui a única, por isso recebi toda a atenção e mimos que uma neta pode receber. Quando a minha mãe soube que estava grávida de uma menina insistiu para que se chamasse Inês, ao que o meu avô reagiu com um épico "Inês? Mas que nome é esse?" Reza a lenda que, meses depois, quando me viu pela primeira vez no hospital, uma recém-nascida um tanto prematura, refilou com as enfermeiras todas porque os outros bebés tinham dois cobertores e eu só tinha um. (Estes dois episódios definem completamente a sua pessoa.) Era o meu avô que me levava ao parque frequentemente para dar pão aos patos, ver os animais, brincar nos baloiços e escorregas. Quando íamos até à terrinha visitar a sua mãe, deixava-me ajudar a alimentar as galinhas e a regar o quintal onde vivia uma rã chamada Ticas. A Ticas habitava também a única janela de uma casa térrea desenhada em traços simples e infantis, e que é a única obra de arte que o meu avô desenhou vezes sem conta aos seus sete netos ao longo dos anos. Ainda hoje me pisca o olho quando a minha avó o manda parar de refilar com os políticos na televisão, e a sua mania de assobiar melodias passou para o meu pai e mais tarde para mim. Mas ainda que sempre tivéssemos sido próximos, nunca o conheci tão bem como nos últimos cinco meses.

Quando regressei senti que o meu avô se tornou ainda mais protector, mas também que passou a tratar-me como uma neta já adulta. Por um lado deve-se ao facto de termos tido pouco contacto durante a minha ausência, uma vez que os meus avós nunca quiseram ter computador ou internet. Mas para além de ter compensado este tempo de separação, ele tem tido conversas mais sérias comigo, e a ligação com a Inglaterra fê-lo relembrar os seus tempos de juventude quando lá foi pela primeira vez com colegas da Força Aérea e a altura em que viveu em Londres com a minha avó. Contou-me várias histórias sobre as suas experiências por terras de Sua Majestade, coisas das quais eu não fazia a menor ideia, e permitiu-me conhecê-lo não só como meu avô, mas também como pessoa. Sempre tive mais oportunidades para conversar com a minha avó, por isso é extraordinário sentir toda esta cumplicidade agora com o meu avô.

 

Quando visitei a irmã da minha avó na Bélgica em Junho, ela contou-me sobre as viagens que tem feito com o marido nos últimos anos, desde os Açores à Índia, e comentou que era uma pena os meus avós já não viajarem muito, em grande parte porque o meu avô perdeu a vontade de sair da sua rotina entre a casa e a casa da terrinha. No entanto, há uns dois meses o meu avô anunciou que no próximo Verão quer ir comigo a Londres para visitar a sua college e todos os outros locais que fizeram parte da sua vida. Será a primeira vez que ele visita Londres em décadas. A minha avó sorri como quem diz "Isto já lhe passa," mas a verdade é que sempre que o vejo ele volta a mencionar Londres com entusiasmo. E gosto de o ver assim. Gosto de pensar que a minha experiência Erasmus não me mudou só a mim.


tune: sigh no more - mumford & sons


Inês @ 20:01

Dom, 25/11/12

 

Que bonita a forma como falas do teu avô :)
Espero que essa viagem a Londres se venha a realizar!


Jules @ 20:14

Dom, 25/11/12

 

ohhh, este post é tão lovely! :)

Joana @ 00:40

Seg, 26/11/12

 

Este é daqueles posts que põem um sorriso na cara de quem lê :D


Nessie @ 19:19

Seg, 26/11/12

 

é bom saber isso :) estava reticente em publicá-lo quando o escrevi porque é bastante pessoal, mas foi precisamente por me fazer sorrir que acabei por ir em frente.

quote de descrição do blog: últimas palavras de François Rabelais, segundo o livro Looking for Alaska (John Green) imagem do cabeçalho via catfromjapan.tumblr.com
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